quinta-feira, 2 de julho de 2009

A importância da equipe de apoio em ultramaratonas

Muitas pessoas pediram para que eu escrevesse algo mais sobre ultramaratonas. É incrível como a curiosidade aguça sempre que se fala em corridas de longas distâncias, especialmente aquelas que trazem algum desafio especial, como correr 135 milhas (217 km) em pleno deserto do Vale da Morte sob temperaturas de mais de 50ºC (Badwater), ou a mesma distância puxando um trenó a -50ºC (Arrowhead), ou subindo e descendo montanhas com chuva na cabeça (BR 135)... Estas três provas fazem parte da Copa do Mundo de Corridas de 135 Milhas -"BAD135 World Cup" - uma iniciativa da empresa americana AdventureCorps, que é dirigida por Chris Kostman, e que já é considerada a série mais difícil do planeta, por incluir ambientes de máximas adversidades (desert0, neve e montanha).
Pois esta curiosidade é minha também, e assim que descobri que na mesma academia que eu malhava o grande ultramaratonista Henrique Jacob, não desgrudei dele. E ele, sabendo de meu interesse, sempre procura me manter atualizada sobre os acontecimentos da área.
Assim, atendendo a pedidos, principalmente do amigo Jorge Cerqueira, e também satisfazendo minha própria vontade, resolvi fazer mais uma entrevista exclusiva com ele, principalmente por ocasião da última Volta do Lago, em que ele integrou a equipe de apoio do incrível Manoel Mendes, lenda viva das ultramaratonas. O Manoelzinho, como carinhosamente é chamado, teve de abandonar a prova após 65 km, por causa de fortes dores nas costas, mas as fotos dão conta de toda a sua garra e do quanto foi heróico o seu feito. Confira!
1) Certa ocasião, você afirmou que a sua vontade de fazer ultramaratonas surgiu a partir de um trabalho que você fez como apoio de um corredor. Antes disso, essa idéia nunca havia passado pela sua cabeça? O que você sabia então sobre ultramaratonas e qual era a sua impressão sobre esses ateltas?
R: Até então eu tinha como maiores objetivos correr maratonas pelo mundo. Sonhava com as maratonas de Nova Iorque, Muralha da China, Paris e várias outras. Não tinha muitas informações sobre ultramaratonas. O que sabia era o que tinha lido no livro “Maratonando” do jornalista e ultramaratonista Rodolfo Lucena. Achava que os atletas que percorriam estas distâncias eram totalmente loucos. Não conseguia entender os motivos que os levavam a encarar este tipo de desafio.
2) Ao fazer o apoio, o que chamou a sua atenção, ao ponto de despertar a sua vontade de tentar correr tão longas distâncias?
R: O que mais e chamou a atenção foi a tranqüilidade com que os atletas superam este tipo de desafio. Era totalmente diferente de correr os 10km, distância para qual que eu treinava. Em vez de pensar nos km percorridos o mais rápido possível, começei a me perguntar, em tom de desafio, quanto tempo podia me manter correndo. Isso era, para mim, muito mais motivador.
3) Fale-nos um pouco sobre quais são as funções da equipe de apoio. É preciso alguma habilidade especial ou algum conhecimento técnico? O que é preciso levar e o que não pode faltar ao corredor?
R: É importante ter uma equipe com experiência em corridas. Tudo depende do corredor para quem se faz o apoio; cada um tem suas necessidades particulares. O que vale mesmo é uma equipe que tenha a disposição de ajudar o atleta no momento em que ele precisar. É sempre bom ter pessoas que mantenham a tranquilidade e o bom humor durante toda prova e, principalmente, nos momentos difíceis. Em provas muito longas, com mais de 24 horas, é fundamental manter um revezamento de descanso entre os membros da equipe e também uma boa alimentação, já que, devido à tensão, a maioria das pessoas não sente fome. É sempre importante ler o regulamento da prova para fazer o planejamento do que levar, conhecer as características do local e as condições climáticas para definir os equipamentos e as roupas para levar.
4) Em algum ocasião em que você fez o apoio, você duvidou que o atleta poderia completar a prova e se surpreendeu com o resultado? A que você atribui essa força de vontade?
R: Nunca duvidei que alguém completasse a prova quando estava fazendo o apoio. A gente sempre espera que o atleta consiga se recuperar. Já me surpreendi diversas vezes com o resultado ou com o corredor, mesmo não tendo uma boa performance. Neste tipo de prova o objetivo principal é completar. A força de vontade vem da motivação, depende de quanto você quer de verdade. É algo sempre pessoal e deve-se encontrar razões para encarar o desafio. É importante sentir prazer no que faz e vontade para alcançar os sonhos.
5) Agora, falando um pouco de você enquanto corredor, o que você espera de quem está fazendo o seu apoio?
R: Depende da equipe que está no apoio, mas sempre espero uma força extra porque só de estarem ali já é uma motivação muito grande. Mas, basicamente, o que espero é ajuda no controle da hidratação, alimentação e suplementação. Também, são necessários caso eu precise de algum equipamento ou fazer uma troca. A equipe também ajuda muito na segurança do atleta. Em algumas corridas, como no deserto, o carro é essencial para ajudar em alguma situação de risco que necessite da remoção do atleta para assistência médica. Nesta prova em particular o atleta finca uma estaca fornecida pela organização no lugar em que parou, vai até algum local para descansar ou fazer o atendimento médico e pode voltar a partir do ponto da estaca. O atleta só não pode tomar intravenosa, sob pena de desclassificação.
6) A sua mãe costuma participar de suas provas, ajudando-o.... Em algum momento a relação pessoal entre vocês dois atrapalhou a concentração ou esse tipo de intimidade ajuda na sua performance?
R: A presença dela é muito positiva. Antes eu ficava mais preocupado, mas hoje em dia, com a experiência, vou ficando mais tranquilo. Sempre ajuda porque ela me conhece, está preparada pra me ajudar a qualquer hora e, principalmente, me dá aquela força extra. É um dos grandes motivos que me fazem continuar quando as coisas ficam complicadas.
7) Em que você pensa quando seu corpo pede para parár? O que te faz continuar?
R: Cada corrida tem sua motivação especial. Procuro sempre pensar em coisas positivas, em situações que também eram complicadas, mas que tive êxito. Basicamente, em um momento difícil, tento focar no movimento da corrida e depois, em outros momentos, desvio o pensamento. Assim tento manter uma eficiência biomecânica e relaxar pensando em outras coisas, como nos meus cachorros, em viagens, momentos alegres e que me trazem felicidade. Quando você sorri em momentos difíceis transmite confiança e alivia um pouco da tensão do momento.
8) Há algum limite? Vale tudo para alcançar a sua meta?
R: O limite está na cabeça de cada um. Eu estou procurando conhecer os meus, mas para o ser humano acho que o limite ainda está longe. Para mim não vale a pena. Temos nossas prioridades na vida e dependendo do risco, tentamos outra vez ou mudamos a meta.
equipe antes da largada
Manoel de madrugada, iniciando o percurso
A eficiente Rita Jacob no apoio
lindo visual amanhecendo
e as subidas não têm fim....
os desafios são muitos...
Valeu Manoel, você é um herói! Que Deus te abençôe!!!!

5 comentários:

Jorge disse...

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Excelente post minha amiga Thais, muito boa a entrevista, li toda a entrevista e estou aprendendo...Muito boa a importância do apoio...
No dia 23 agosto estarei correndo pela 2ª vez os 50K de Friburgo e se eu consegui apoio nos dias 28 e 29 novembro estarei correndo a minha primeira ultra de 24 horas nos fuzileiros navais.

Bom final de semana e bons treinos,

Jorge Cerqueira
www.jmaratona.blogspot.com

Dr. Simão Bacamarte disse...

É pedreira!!!

Stipa disse...

Olá Thais, meu nome é Leandro e realmente este mundo é pequeno demais. Recentemente criei um blog e hoje eu estou acompanhando a cobertura on line da Badwater, devido a participação de um amigo da minha cidade: Ariovaldo Branco. Acompanhando pelo site conheci Rita Jacob e ao pesquisar mais sobre meu amigo Ari, veio seu blog e para incrivel coincidência esta bela entrevista sobre o filho dela! Perfeito!

Thais Aroca disse...

Oi Jorge,

Que bom que você está se aventurando agora nas ultras. Lendo o seu blog eu vi que você yinha um perfil muito bom para isso. É que você tem muita garra e força de vontade, essencial para esse tipo de desafio, E, além de tudo, corre muito rápido. Acho que tem chances de se dar muito bem... O ultramaratonista Henrique Jacob tambpem estará lá na corrida de 24 horas dos Fuzileiros! Ele vai correr com a mãe dele, a Rita Jacob. Provavelmente será a primeira vez que mãe e filho correm juntos uma ultra. Vamos acompanhar... Se você quiser, coloco você em contato com ele, ok?

Um abração,

Anônimo disse...

Henrique, sua entrevista é exatamente o que se pode traduzir de um ultramaratonista, fiz a Volta do Lago este ano e confesso que poderia usar seu relato para traduzir esta prova dura, mas muito bela (Brasilia). Agora sobre seu apoio em provas é sem sombra de duvidas o melhor apoio que alguem poderia receber. Abraços e parabens. Estou no twiter (sbeltrao)

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